Sobre o desleixo na contratação dos profissionais de educação infantil no AM.

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Um dia desses, fui ao mercadinho próximo de casa e já no fim das compras percebi que a fila estava enorme, logo, entro na fila e bem atrás de mim chega uma moça (acredito que mais nova que eu) e começa a puxar assunto comigo. Em poucos minutos eu já estava sabendo algumas coisas sobre a vida dela. Bom, mas vamos ao que interessa aonde eu quero chegar com essa conversa fiada não é? Como isto vai parar em educação?

A moça me contou que veio do interior do Amazonas em busca de melhores oportunidades de trabalho, já que em sua terra estas estavam escassas. Chegando aqui (Manaus) uma conhecida entregou o currículo dela numa creche/escolinha infantil ali do Bairro mesmo e então semanas depois ela já iniciou seu primeiro emprego lá. Não me inquieta o fato de que a moça veio atrás de oportunidade e conseguiu. Ainda fico pasmem ao perceber que no meio educacional não se reconhece a especificidade deste nível de ensino. Muitas escolinhas ainda contratam pessoas despreparadas para o trabalho educativo com crianças! A partir deste ponto havia me interessado pela conversa e perguntei se a colega que a indicou trabalhava lá há muito tempo e se já tinha feito algum curso na área, a resposta foi que quem a indicou trabalhava lá há três anos e não, não havia procurado nada da área, porque não queria fazer carreira nisso e também porque trabalhar com crianças não tinha mistério, pois naquela idade era só deixar brincar!!!

Enfim, havia chegado minha vez de ser atendida no caixa, despedi-me da moça, e saí dali não apenas com o peso das sacolas, mas também com o peso de alguém que se preocupa em demasia com o tipo de educação destinada aos pequeninos. É certo que nessa fase eles devem brincar, mas o adulto que o acompanha possui responsabilidade educativa e não deve jamais ser omisso, abandonando o ideal pedagógico do aprender brincando.

Patrícia Nogueira.

Imagem retirada do site: http://www.sarandi.pr.gov.br/edu/index.php/educacao-infantil

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Lisbela e o Prisioneiro

Uma peça teatral cômica e romântica de Osman Lins (1961), adaptada para o cinema pelo Diretor Guel Arraes, e lançada no ano de 2003.

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O filme “Lisbela e o Prisioneiro” lançado no ano de 2003 é uma obra cômica de Osman Lins que teve seu roteiro adaptado para o cinema pelo Diretor Guel Arraes, este recebeu a ajuda de Pedro Cardoso e Jorge Furtado na adaptação do roteiro. Marcado por um cenário nordestino e colorido, o diretor consegue exibir no longa-metragem todo hibridismo e lirismo do autor da obra, o Pernambucano, Osman Lins.

Nesta adaptação criativa do texto original, o diretor optou por utilizar cerca de 30% do texto e diálogos da peça, o resultado foi um roteiro com uma linguagem rápida e carregada de humor. A técnica cinematográfica e a dinâmica de suas imagens em movimento invadem a técnica literária e suas palavras estáticas no papel.

A comédia conta a divertida história de Leléu, um cabra aventureiro e conquistador, e da romântica, doce e sonhadora Lisbela, que adora assistir a filmes americanos e sonha acordada com os mocinhos do cinema. Quando Leléu chega à cidade a moça já está noiva e de casamento marcado. Porém, o sentimento e encantamento afloram mutuamente no casal, começando assim, uma trama cheia de personagens inspirados no cenário nordestino.

Lisbela é filha de um pai severo, o chefe de polícia Tenente Guedes, e noiva de Douglas, um pernambucano um tanto quanto problemático com relação as suas origens nordestinas, que se utiliza de um sotaque carioca fajuto para escondê-las.

O casal sofrerá pressões familiares, sociais e também serão aturdidos por suas próprias dúvidas e medos. Entretanto, numa reviravolta na narrativa, cheia de aventuras e humor, os dois seguem seus destinos juntos.

Neste filme podemos observar um fenômeno denominado pelos linguistas de variação, que existe em toda língua do mundo, pois nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, por isso dependendo da região a língua sofrerá uma leve mudança de pronúncia.

Podemos afirmar analisando o enredo do filme que os dramas, aflições e sonhos vividos por suas personagens são universais. Porém, a linguagem utilizada por suas personagens é carregada de regionalismo nordestino. Apesar, de não ser a personagem principal, Douglas, o noivo de Lisbela, chama a atenção pelo fato de ser um nordestino que renega suas raízes adotando um sotaque carioca. Ao que parece, ele quer manter uma posição de status, utilizando-se da fala da cidade grande se sente em um nível social acima de seus conterrâneos. Pode não ter sido a principal intenção do autor, tocar neste tópico de preconceito linguístico em relação à fala característica de certas regiões, no entanto, a personagem interpretada pelo ator Bruno Garcia conseguiu despertar uma reflexão para esta questão: o preconceito que as falas de algumas regiões brasileiras sofrem. Dentre essas, destaca-se a nordestina que é vista como “atrasada”, “pobre”, “subdesenvolvida” e “pitoresca”, mostrando que o que está em jogo não é a língua, mas a pessoa que fala e a região geográfica onde a mesma vive. Pois, “não existe nenhuma variedade nacional, regional ou local que seja intrinsecamente ‘melhor’, ‘mais pura’, ‘mais bonita’, ‘mais correta’ que a outra”. (BAGNO,1999,p.47)

Seja destacando o regionalismo ou o hibridismo de gêneros literários, Lisbela e o Prisioneiro é uma produção cinematográfica brasileira, bonita e lírica, um filme que encanta pela leveza, doçura, aventura, malandragem, sotaques alegres e tradições regionais do Nordeste.

Guel Arraes é natural de Recife (PE), nasceu em 12 de Dezembro de 1953. Exerce a profissão de cineasta e diretor de televisão. Entre os seus filmes mais conhecidos estão: O Auto da Compadecida (2000), Caramuru – A invenção do Brasil (2001), O Bem Amado (2010). Já recebeu diversos prêmios Nacionais e Internacionais por produzir roteiros bem adaptados, atualmente é um grande ícone da comédia brasileira.

Patrícia Nogueira.

ENSINAR GRAMÁTICA NÃO BASTA!

Resenha crítica do Livro Porque (não) ensinar gramática na escola do autor Sírio Possenti.

Na vida em sociedade a linguagem se estabelece como fator primordial, acima de qualquer outro. Todos falamos, e dela tomamos posse, a linguagem contraditoriamente é estudada por poucos, e esses poucos não podem declarar-se especialistas dela, de acordo com Saussure (2006,p.14): “[…] não há domínio onde tenham germinado ideias tão absurdas, preconceitos, miragens, ficções”. E estes preconceitos são sentidos mais consistentemente na escola, criando grandes mitos referentes à língua e gramática.

Foi pensando em desmitificar alguns destes imbróglios sobre língua e gramática, e principalmente em apresentar aos profissionais da educação que ensinam língua materna novas sugestões de práticas para sala de aula que o autor Sírio Possenti, linguista e professor da Unicamp escreveu o livro Por que (não) ensinar gramática na escola, que foi lançado pela editora Mercado de letras, no ano de 1996.

O livro é divido em duas partes, na primeira Possenti explana de forma clara e concisa sobre o papel da escola que é ensinar a língua padrão e deixa claro que qualquer outra conjectura que descarte a ideia do ensino da língua padrão nas escolas é um deslize pedagógico, e acima, de tudo político. No decorrer da primeira parte vai explicando sobre velhos conceitos ainda entranhados não só no ambiente escolar, mas também na sociedade, entre eles destaco o de que não existem línguas fáceis ou difíceis, superiores ou inferiores, primitivas ou desenvolvidas, o autor deixa claro que todas as línguas são estruturas de igual complexidade, se possuem léxico menor ou maior não importa, o que é relevante é que atendam a necessidade comunicativa da comunidade, tribo ou povo a que pertencem.

Com o discurso sempre bem fundamentado Possenti vai destituindo as ideias mais difundidas entre o senso comum sobre a linguagem, fazendo com que o leitor entenda que não há línguas uniformes, ou imutáveis, nem alunos que não saibam a gramática ou que não saibam falar, pois já carregamos desde cedo nossa gramática internalizada, tudo isto, é apenas uma introdução para embasar o leitor, que deve chegar à segunda parte do livro entendendo que a gramática não engloba toda realidade da língua, pois aprecia somente os usos aceitáveis na perspectiva da língua prestigiada socialmente.

Podemos depreender que não basta saber gramática da norma culta para falar, ler e escrever satisfatoriamente. É preciso que estes estudos mais recentes realizados sobre as teorias linguísticas e que abordam as leis dos discursos, as estratégias de textualização alcancem aos educadores, e que estes propaguem utilizando-se dessas técnicas e teorias para transmitir um novo ensino de língua materna nas salas de aula.

É de extrema importância que não só os pais dos alunos, mas também a sociedade compreendam que a gramática é incapaz de encarregar-se de todas as nossas necessidades comunicativas, por este motivo, o ensino deve ir além da gramática, a escola deve lembrar também do léxico, das composições de textos, da importância de abordar a questão dos neologismos e estrangeirismos e etc. Em suma, pode ser inserido num programa de estudo da língua outras atividades de observação, pesquisa e exploração contribuindo para a melhora das condições cognitivas, textuais e sociais que tornarão a linguagem útil e significativa.

Dessa maneira, um ensino com mais princípios, visões, perspectivas, ideias e hipóteses podem assegurar a riqueza de informações, pois quem conhece a gramática da norma culta pode não ter o que dizer, pode apenas repetir regras, o aluno precisa saber o que expressar. A insignificância de muitos discursos, não se origina do pouco conhecimento gramatical, mas sim da pobreza de informações.

O livro de Possenti serve apenas como introdução básica deste “novo” enfoque que se deve dar ao ensino da língua materna, recomendo também leituras complementares dos livros “Muito além da Gramática” e “Aula de Português: encontro e interação” da Doutora em Linguística pela Universidade de Lisboa: Irandé Antunes.

Patrícia Nogueira.

Sobre os domingos da Infância.

Domingo.

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Amanhece, e é Domingo! Daquele bem ensolarado e quente, mormaço típico da nossa região.

Café da manhã de domingo é sempre mais gostoso, é mais caprichado. Papai vai ao mercado e compra farinha de tapioca, tucumã, queijo coalho e um peixe bem fresquinho para comer assado no almoço, enquanto isso mamãe cozinha a macaxeira, domingo sempre tem algo especial no café, é o cuscuz que a vovó prepara bem molhadinho com leite, banana frita, cará roxo. Domingo era o meu dia com o papai, ele era só meu nesse dia. Então eu já acordava bem cedo para não perder um só minuto daquela companhia, assistia a fórmula 1, e depois me preparava para ir à feira da Panair, assistíamos juntos a toda programação matinal, inclusive o Globo Rural… (rsrs).

Como eram lindos os domingos da minha infância, quando o domingo amanhecia nublado, desenhava o sol no pátio de casa para ele aparecer e coincidentemente ele sempre aparecia sorrindo para a criançada da rua brincar de manja-esconde, manja-pega, garrafão, cemitério, andar de patins e pedalar muito pelo bairro. Domingo era o último dia para aproveitar o fim de semana, por isso, eu tinha que me divertir muito… Era tanta agitação que às 19h00 horas eu já estava pronta para cair no sono no colo do papai. Domingo era o dia que a casa estava segura com a presença dele, as portas e janelas ficavam abertas, a casa era mais ventilada. Foi num domingo também que eu conheci os mestres do samba: Paulinho da Viola, Jorge Aragão, João Nogueira… o samba do partido alto tocava nas alturas no quintal lá de casa… Martinho da Vila e Zeca Pagodinho eram os campeões.

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O domingo reunia os primos para jogar video game, super nintendo e nintendo 64, primos reunidos era trabalho dobrado para a vovó…quebravam os porquinhos, juntavam as moedinhas e íam comprar besteira: bombom, chiclete, pipoca e milhiiiiitos…como era gostoso aquele milhitos. Também fazíamos muitas peripécias, sempre tinha um dedo cortado, um joelho ralado e choro porque merthiolate ardia. Não importava mesmo se no outro dia já tinha aula, já era segunda-feira… não importava porque criança não sofre antecipado.

E até mesmo depois da infância, domingo sempre tem uma lembrança boa… a reclamação da mamãe porque eu chegava muito tarde da festa… a volta na estrada com os amigos depois daquele banho de cachoeira, uma visita inesperada, um pedido de namoro que dura até hoje, aquele cineminha do fim de tarde, o jogo do brasileirão visto na casa de um amigo…como tudo tem sua exceção , no meio das infinidades de coisas boas no domingo podemos deletar o Faustão, Raul Gil, Gugu e Silvio Santos…rs

Mas, enfim, é ingratidão demais reclamar do domingo, do domingo que nos proporciona tantos momentos bonitos nessa nossa vida!

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Resenha Crítica: “Linguagem e Escola: Uma perspectiva social” Magda Soares.

A linguagem como elemento de libertação e opressão social.

Controle e coerção social ou libertação?

O renomado sociolinguista Marcos Bagno diz que, “a linguagem de todos os elementos de controle e coerção social é o mais complexo e sutil”, e é por meio da sociologia que Magda Soares, a autora do livro “Linguagem e Escola: Uma perspectiva social” nos abrirá os olhos desenredando os pressupostos ideológicos do fracasso das camadas populares na escola.
O livro é divido em oito capítulos onde a autora nos apresenta os seguintes tópicos: 1) Introdução; 2) O fracasso da escola; 3) Deficiência linguística; 4) Diferença não é deficiência; 5) Na escola, a diferença é deficiência; 6) Que pode fazer a escola; 7) Vocabulário crítico e 8) Bibliografia comentada. Em todos os capítulos, apresentando discursos fundamentos nas teorias da sociologia e da sociolinguística, Magda irá nos provar de diversas formas que “a língua excede a gramática”. (Ilari & Basso,2006,p.226).
No capítulo dois a autora traz um questionamento pertinente sobre a escola para o povo, e acaba por nos fazer enxergar que no Brasil, a escola que existe é antes contra o povo que para o povo, isso porque a evasão ainda é desmedida até mesmo nas grandes capitais, os alunos das camadas populares sentem a rejeição que se esconde pelas ideologias do dom e da deficiência cultural ainda tão presentes, disseminadas e internalizadas no ambiente educacional, ideologias estas que acabam por culpar a vítima pelo seu fracasso escolar.
Estas duas ideologias tão implícitas e internalizadas na sociedade e nos ambientes em que se dá à educação nos remetem as leituras de Bordieu sobre o papel da escola na reprodução e legitimação das desigualdades sociais, é incrível perceber que esta inversão total de perspectiva ainda é tão viva no sistema educacional passados praticamente quarenta anos das publicações dessas teorias. A terceira explicação que a autora nos apresenta parece a que melhor atende às necessidades de uma escola para o povo, para que exista uma escola para o povo, o corpo escolar deve, primeiramente, olhar para esse aluno oriundo das camadas populares não o julgando como carente ou deficiente, mas o enxergando como diferente. As escolas devem reconhecer que há uma diversidade de culturas pelo Brasil, além de reconhecer deve-se respeitar essa diversidade, é necessário entender este olhar antropológico sobre a escola e a visão de cultura que esta tem dos alunos que provém de camadas populares, esta concepção de deficiência cultural surge do conceito de “déficit linguístico”, e é este conceito de “déficit” o maior responsável pelo fracasso escolar.
Nos capítulos que se seguem Magda nos apresentará as teorias de Bernstein e Labov, e ambas condenarão o uso de educação compensatória nas escolas, repudiando as falhas no sistema escolar que são atribuídas à criança e enfatizando que o fracasso escolar dá-se justamente porque culpamos o lado errado. Trazendo estas teorias para o Brasil e fazendo análises sobre nossa atualidade ainda se vê o preconceito não só contra a fala de determinadas classes sociais, mas também com a fala de determinadas regiões, fazendo leituras sobre o que vai além da linguagem, percebe-se que o que está em jogo não é a língua, mas a pessoa se é proveniente de classes ricas ou pobres, de regiões abastado-desenvolvidas ou subdesenvolvidas, a autora nos leva a refletir sobre a educação transformadora que almejamos por em prática nas salas de aula, e para que esta educação saia do nível teórico é preciso abrir mão de preconceitos profundamente enraizados em nossa sociedade, como o de atribuir a um único local ou a uma única comunidade, ou a própria gramática normativa a taxação de língua “melhor” ou “pior”, certa” ou errada”. Como educadores temos que levar em consideração a presença de variações linguísticas nas diversidades culturais.
Neste estudo social e antropológico que a autora nos apresenta sobre a linguagem fica claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial, porém ensinar de modo a esclarecer para o aluno a diferença entre língua falada e escrita, pois, na prática nós esquecemos de que a língua além de uma gramática também possui um léxico. Em síntese, a gramática da língua será aprendida naturalmente, será incorporada ao conhecimento intuitivo, internalizado, o professor que ainda se pergunta: o que fazer para ajudar os alunos que não sabem produzir textos, porque não possuem conhecimento em gramática! Ainda não entenderam a existência dessa gramática internalizada.
Não por acaso, Nebrija fazia a comparação entre gramática e conquista colonial se utilizando das seguintes palavras: “A língua sempre foi companheira do império.”(p.46). O único modo de levar o aluno das camadas populares, o oprimido a libertação é criando uma escola em que possam ser adquiridos os instrumentos necessários à luta, estes instrumentos só serão adquiridos por meio da linguagem.
O livro nos apresenta a língua como ativa e viva, com pessoas capazes de administrá-la, destacando que é necessário explorar a flexibilidade dos padrões linguísticos e mostrar aos alunos contextos em que eles poderão escolher entre uma forma e outra.
A autora Magda Soares é formada em Letras Neolatinas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em Educação também pela UFMG, onde atua como professora titular, autora de livros como “Alfabetização e letramento” e Alfabetização e cidadania”, defende uma abordagem com enfoque sociológico e antropológico do ensino da língua materna nas escolas.

Patrícia Nogueira